A substituição acelerada de profissionais em início de carreira por sistemas de inteligência artificial pode gerar economia imediata, mas também criar uma lacuna difícil de corrigir no futuro. O alerta é de Andrew McAfee, cientista pesquisador do MIT e colíder da Initiative on the Digital Economy.
Na avaliação do especialista, vagas destinadas a estagiários, trainees e profissionais recém-formados não servem apenas para executar tarefas operacionais. Elas também funcionam como porta de entrada para o aprendizado prático, a transmissão de conhecimento e a formação das lideranças que sustentarão as empresas nos próximos anos.
Ao eliminar essas posições, as organizações podem interromper o caminho pelo qual profissionais aprendem atividades mais complexas, ampliam responsabilidades e se preparam para assumir funções estratégicas.
“De que outra forma as pessoas vão aprender a fazer o trabalho, senão aprendendo no próprio trabalho, em um regime de treinamento e aprendizagem?”, disse McAfee à Harvard Business Review em abril. “É assim que se aprende a fazer trabalho intelectual difícil: ajudando alguém que é bom nisso com as tarefas rotineiras. E quando colocamos automação demais, rápido demais, perdemos essa escada de aprendizagem.”
Automação pode romper o ciclo de formação
Atividades iniciais costumam ser vistas como as mais simples e, por isso, aparecem entre as primeiras candidatas à automação. No entanto, tarefas de apoio, pesquisa, organização e análise também cumprem uma função importante na construção da experiência profissional.
É por meio delas que jovens talentos aprendem processos, observam profissionais mais experientes, entendem o funcionamento da organização e desenvolvem critérios para tomar decisões com maior autonomia.
Quando a tecnologia assume todas essas etapas, a empresa pode até reduzir custos no curto prazo, mas perde parte de seu ambiente de formação. O resultado pode surgir alguns anos depois, quando houver menos profissionais preparados para ocupar posições intermediárias e de liderança.
O risco não está apenas na redução do quadro atual. Ele envolve o enfraquecimento do funil responsável por desenvolver especialistas, gestores e executivos.
Geração Z reúne maior familiaridade com IA
Além de comprometer a formação de talentos, a redução das contratações iniciais pode afastar justamente os profissionais mais acostumados a utilizar inteligência artificial.
Segundo estudo da Deloitte publicado em novembro de 2025, 76% dos integrantes da geração Z afirmaram utilizar alguma ferramenta de IA autônoma, o maior percentual entre todas as gerações analisadas.
Essa familiaridade pode ser estratégica para empresas que ainda tentam compreender como integrar a tecnologia aos processos internos, criar novas aplicações e transformar experimentos em ganhos reais de produtividade.
“Há uma grande queda demográfica. À medida que envelhecemos, tendemos a ficar mais presos aos nossos hábitos e menos dispostos a experimentar novidades malucas como a IA”, acrescentou McAfee, que também é cofundador da Workhelix, startup que ajuda empresas a entender o retorno sobre investimento em IA.
“Então, se você está reduzindo suas contratações de nível inicial, provavelmente está sacrificando oportunidades futuras de aprendizado e os profissionais qualificados do futuro. Também está fechando a torneira dos usuários mais entusiasmados e intensivos de IA na sua organização.”
Nesse contexto, jovens profissionais podem contribuir não apenas como mão de obra em formação, mas como agentes de experimentação, aprendizado e disseminação de novas práticas digitais.
Mercado de entrada já mostra sinais de retração
A preocupação ocorre em um cenário mais difícil para recém-formados. Nos Estados Unidos, as vagas publicadas no Handshake, plataforma voltada a posições iniciais, recuaram 2% em relação ao ano anterior e estavam 12% abaixo dos níveis registrados antes da pandemia.
A taxa de desemprego entre graduados universitários de 22 a 27 anos chegou a 5,6%, segundo o Federal Reserve de Nova York.
A insegurança também cresceu entre estudantes próximos da formatura. Quase nove em cada dez integrantes da turma de 2026 disseram temer que a IA ou a automação substituam vagas de entrada. Em 2025, essa preocupação era compartilhada por 64%, conforme levantamento do Monster.
Parte desse receio foi ampliada por previsões de líderes do setor de tecnologia sobre uma possível eliminação de posições administrativas iniciais. O debate, porém, está longe de ser definitivo.
Dados históricos indicam que trabalhadores mais jovens podem ter maior capacidade de adaptação diante de mudanças tecnológicas. Uma análise do Goldman Sachs apontou que jovens com diploma universitário costumam registrar perdas de renda menores após demissões e apresentam mais facilidade para mudar de ocupação.
Eles também tendem a migrar para atividades complementares às novas tecnologias, em vez de disputar diretamente com elas.
“Ao contrário das preocupações atuais de que os custos da IA recairão com força especial sobre os recém-formados”, diz o relatório, “os trabalhadores mais jovens historicamente conseguiram se ajustar com mais flexibilidade, por meio de mobilidade ocupacional e aprimoramento de habilidades.”
Grandes empresas mantêm aposta em novos talentos
Enquanto algumas organizações reduzem posições iniciais, outras seguem uma estratégia diferente. IBM, Salesforce e Amazon ampliam ou preservam programas de contratação voltados a estudantes e recém-formados.
A IBM informou que pretende triplicar as contratações de nível inicial, com o objetivo de desenvolver competências duradouras e gerar valor no longo prazo.
“As pessoas estão falando em demissões ou congelamento de contratações, mas eu quero dizer que somos o oposto”, afirmou o CEO da IBM, Arvind Krishna, em outubro de 2025. “Espero que provavelmente contrataremos mais gente recém-saída da universidade nos próximos 12 meses do que nos últimos anos, então vocês vão ver isso acontecer.”
A Salesforce também anunciou a contratação de mil recém-formados e estagiários para apoiar o desenvolvimento de seus sistemas de inteligência artificial.
“Vocês têm razão, disseram que a IA mataria os empregos de nível inicial”, escreveu o CEO Marc Benioff no X. “Enquanto isso, esses formandos e estagiários estão construindo a IA, tocando o Agentforce e o Headless360 na Salesforce.”
A Amazon, por sua vez, planeja contratar 11 mil estagiários de engenharia de software em 2026, mantendo o volume registrado nos anos anteriores.
“Posso dizer que estamos contratando tantos desenvolvedores de software quanto sempre contratamos dentro da Amazon”, disse o CEO da AWS, Matt Garman. “E, na verdade, vejo essa demanda realmente acelerando.”
IA deve ampliar talentos, não interromper carreiras
O debate não significa que empresas devam evitar automação ou preservar tarefas apenas porque eram tradicionalmente executadas por profissionais iniciantes.
A questão central está em como redesenhar essas funções. Em vez de eliminar completamente a entrada de jovens talentos, organizações podem utilizar a IA para acelerar o aprendizado, ampliar a produtividade e permitir que profissionais assumam responsabilidades mais relevantes mais cedo.
Essa abordagem exige programas de capacitação, acompanhamento próximo, acesso a projetos reais e oportunidades progressivas de desenvolvimento.
A inteligência artificial pode retirar tarefas repetitivas do cotidiano, mas não substitui a experiência acumulada ao longo de uma carreira. Sem espaço para aprender, experimentar e errar com orientação, empresas correm o risco de chegar ao futuro com tecnologia avançada e poucas pessoas preparadas para liderá-la.
fonte: terra
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