A relação entre trabalho, saúde mental e tecnologia passa por uma transformação profunda. O avanço dos algoritmos, a busca por maior autonomia profissional e o crescimento dos casos de esgotamento emocional colocam em xeque modelos de gestão que, durante décadas, priorizaram produtividade e resultados sem considerar plenamente o impacto sobre as pessoas.
Três obras lançadas recentemente abordam diferentes dimensões desse cenário. Embora partam de perspectivas distintas, os livros convergem para uma mesma conclusão: empresas, líderes e profissionais precisam rever a maneira como constroem carreiras, tomam decisões e estabelecem relações no ambiente de trabalho.
Bem-estar passa a fazer parte da estratégia
No livro “Revolução Corporativa: Liderança, Felicidade e Saúde Mental no Trabalho”, publicado pela Trend Editora, a especialista em liderança Renatta Rêzende defende que o bem-estar deixou de ser uma pauta complementar da área de recursos humanos.
Diante do aumento dos casos de burnout e dos afastamentos relacionados à saúde emocional, a autora argumenta que o tema precisa ocupar uma posição central na estratégia das organizações.
Para Renatta, metas financeiras e crescimento de receita continuam importantes, mas não são suficientes para sustentar empresas saudáveis no longo prazo. Propósito, pertencimento e reconhecimento também devem ser tratados como ativos estratégicos.
A obra apresenta exercícios de autoconhecimento, indicadores de engajamento e ferramentas destinadas a ajudar líderes e organizações a identificar sinais de esgotamento antes que eles comprometam a saúde dos profissionais e o desempenho dos negócios.
Essa abordagem reforça uma mudança relevante na gestão: cuidar das pessoas deixa de ser apenas uma iniciativa de apoio e passa a influenciar diretamente produtividade, retenção de talentos, reputação e continuidade operacional.
Algoritmos moldam vínculos e comportamentos
A influência da tecnologia sobre as relações humanas é o tema central de “Ilusão Coletiva: Psicanálise, Massas Digitais e Ciberpopulismo”, publicado pela Editora Pangeia e escrito pelo psicanalista Marcio Garrit.
Com base em reflexões de Sigmund Freud e Étienne de La Boétie, o autor analisa como redes sociais, plataformas digitais e algoritmos passaram a exercer funções que, em outros momentos históricos, eram associadas a partidos, igrejas e meios tradicionais de comunicação.
Esses sistemas não apenas distribuem informações. Eles também influenciam a formação de grupos, crenças, identidades e sentimentos de pertencimento.
“O problema talvez não seja uma crise da verdade. A verdade nunca foi o principal motor das massas. As pessoas não se organizam apenas em torno de fatos, mas daquilo que lhes oferece pertencimento, esperança e sentido”, afirma Garrit.
Para o autor, a transformação também alterou a maneira como lideranças são construídas e percebidas.
“O líder saiu do palanque e entrou no celular. Essa talvez seja uma das maiores transformações da vida contemporânea.”
A análise evidencia um desafio crescente para profissionais e empresas: compreender como ambientes digitais influenciam decisões, comportamentos, relações de confiança e até a percepção da realidade.
Modelos de contratação exigem escolhas conscientes
A dimensão jurídica e profissional dessa transformação aparece em “Relações de Trabalho Modernas e as Fronteiras da Legalidade”, da advogada trabalhista Marina Aguayo.
A autora discute como diferentes formatos de trabalho, entre eles o regime CLT, a atuação como pessoa jurídica e a carreira no serviço público, podem afetar a segurança emocional, a autonomia e a realização profissional.
Marina destaca que não existe um único modelo adequado para todos. Enquanto algumas pessoas valorizam previsibilidade, estabilidade e benefícios associados ao emprego formal, outras encontram maior satisfação em formatos que oferecem autonomia e flexibilidade.
“Há pessoas que precisam da previsibilidade da CLT ou do serviço público para se sentirem seguras, enquanto outras se realizam com a autonomia e a liberdade proporcionadas pela atuação como PJ ou empreendedor. O importante é compreender o próprio perfil antes de tomar decisões que impactam toda a trajetória profissional”, afirma a advogada.
Ao mesmo tempo, a autora alerta para os riscos jurídicos associados à pejotização e às contratações híbridas, especialmente quando existe uma diferença entre o modelo formalizado e as condições reais da prestação de serviços.
“A realização profissional não está necessariamente no regime de contratação, mas na compatibilidade entre aquilo que o trabalho oferece e aquilo que a pessoa busca para sua vida. Quando essa conexão não existe, é comum surgirem insatisfação, esgotamento e até problemas de saúde mental.”
Liderança e carreira precisam de novos critérios
As três obras observam diferentes camadas de uma mesma transformação. De um lado, líderes precisam reconhecer que saúde mental, confiança, pertencimento e reconhecimento influenciam diretamente o desempenho das equipes. De outro, profissionais precisam avaliar com mais consciência quais modelos de trabalho correspondem às suas necessidades e aos seus objetivos.
Ao mesmo tempo, o crescimento da influência dos algoritmos exige uma leitura mais crítica sobre a forma como opiniões, comportamentos e vínculos são construídos no ambiente digital.
Nesse cenário, o futuro do trabalho não depende apenas de novas tecnologias ou formatos de contratação. Ele também exige lideranças mais preparadas, ambientes organizacionais responsáveis e profissionais capazes de tomar decisões alinhadas aos próprios valores, limites e projetos de vida.
As obras mencionadas são:
“Revolução Corporativa: Liderança, Felicidade e Saúde Mental no Trabalho”, de Renatta Rêzende, publicado pela Trend Editora.
“Ilusão Coletiva: Psicanálise, Massas Digitais e Ciberpopulismo”, de Marcio Garrit, publicado pela Editora Pangeia.
“Relações de Trabalho Modernas e as Fronteiras da Legalidade”, de Marina Aguayo.
fonte: diário do comércio
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