A corrida global pela inteligência artificial avançou em ritmo acelerado, abriu novas frentes de negócio e atraiu volumes bilionários de investimento. Mas, no SXSW 2026, uma das vozes mais relevantes do setor chamou atenção para um problema que costuma ficar fora do centro do debate: a tecnologia evoluiu muito em capacidade computacional, mas ainda pouco em compreensão humana.
Durante participação no evento, a cientista da computação Rana el Kaliouby afirmou que a indústria passou a medir a inteligência das máquinas quase exclusivamente por critérios cognitivos, deixando em segundo plano elementos essenciais da comunicação humana, como emoção, contexto, expressão facial, tom de voz e postura. Para ela, essa escolha pode limitar o potencial da IA e ampliar distorções importantes no mercado.
“Hoje medimos apenas a inteligência cognitiva das máquinas. Mas se quisermos chegar a uma inteligência realmente avançada, precisamos incorporar inteligência emocional”, afirmou a pesquisadora.
A fala recolocou no debate um ponto sensível da nova fase da inteligência artificial. Em vez de pensar apenas em modelos mais poderosos, mais rápidos e mais escaláveis, a discussão passou a incluir que tipo de inteligência está sendo construída e a serviço de quem ela está sendo colocada.
A tecnologia avançou, mas segue pouco sensível ao humano
Segundo Rana, a indústria se mostrou obcecada com o que ela chamou de “QI das máquinas”, enquanto ignorou o fato de que boa parte da comunicação humana acontece fora das palavras. Esse descompasso, na avaliação da especialista, fez com que sistemas altamente sofisticados em linguagem ainda operassem de forma limitada quando precisam interagir com pessoas em situações reais.
“Só 7% da comunicação humana está nas palavras. O restante envolve expressões faciais, tom de voz, postura e contexto. A tecnologia ainda é praticamente cega a isso”, disse.
Esse ponto é especialmente relevante porque aponta para uma lacuna estrutural no desenvolvimento atual da IA. À medida que modelos ganham espaço em atendimento, educação, saúde, consumo e trabalho, cresce também a necessidade de sistemas capazes de interpretar melhor nuances humanas, e não apenas comandos textuais.
Hype financeiro existe, mas não anula a transformação
Outro tema abordado no painel foi a possibilidade de a inteligência artificial estar vivendo uma nova bolha tecnológica. Rana reconheceu sinais claros de exagero no mercado, especialmente diante de startups que levantaram centenas de milhões de dólares sem produto consolidado ou geração consistente de receita.
Ela também chamou atenção para estruturas de investimento que reforçam um circuito fechado entre empresas do próprio setor.
“Vemos grupo pequeno de empresas investindo umas nas outras. A Nvidia investe em empresas de IA, que usam esse dinheiro para comprar chips da Nvidia”, observou.
Ainda assim, a especialista não descartou o potencial transformador da tecnologia. Para ela, a IA permaneceu em estágio inicial e ainda deve gerar impacto profundo em áreas como saúde, longevidade, futuro do trabalho, sustentabilidade e energia.
“Estamos apenas no começo de uma enorme oportunidade econômica”, afirmou.
Automação não elimina humanos, mas redefine o trabalho
Ao tratar da relação entre IA, robótica e mercado de trabalho, Rana defendeu uma visão menos simplista do que a ideia de substituição total de pessoas por máquinas. Segundo ela, a tendência mais imediata esteve ligada à automação de tarefas repetitivas, perigosas ou com baixa disponibilidade de mão de obra.
O exemplo citado foi o uso de robôs humanoides para soldagem em estaleiros, atividade considerada de alto risco.
“Há trabalhos que simplesmente não têm pessoas suficientes dispostas a fazê-los. Nesse caso, faz sentido que máquinas assumam essas tarefas”, exemplificou.
Na prática, a discussão se deslocou do medo de substituição generalizada para uma reorganização mais ampla da relação entre humanos e sistemas inteligentes. O desafio deixou de ser apenas proteger postos existentes e passou a envolver como redesenhar funções, complementar capacidades e garantir transições mais equilibradas.
Criatividade humana tende a ganhar novo peso
Outro receio bastante presente no debate público também foi abordado: a ideia de que a IA generativa pode destruir a economia criativa. Para Rana, o efeito tende a ser mais ambíguo e menos linear.
Se, por um lado, a tecnologia reduziu barreiras técnicas e ampliou a capacidade de criação de conteúdo por parte de mais pessoas, por outro, esse mesmo movimento pode valorizar ainda mais aquilo que a máquina não reproduz com autenticidade: visão autoral, experiência vivida e perspectiva humana.
“Quando qualquer pessoa pode criar conteúdo, o que passa a diferenciar é a perspectiva humana, a experiência vivida e a visão autoral”, sinalizou.
Essa leitura sugere que o avanço da IA não necessariamente esvazia a criatividade, mas muda os critérios de diferenciação em mercados cada vez mais inundados por produção automatizada.
Falta de diversidade pode ampliar desigualdades
Entre os temas mais contundentes da participação de Rana esteve a crítica à baixa diversidade na indústria de inteligência artificial. Segundo ela, o setor continuou fortemente dominado por homens, tanto na criação de startups quanto no acesso a capital.
“Se mulheres ficarem de fora dessa corrida, vamos ampliar dramaticamente a desigualdade econômica nos próximos anos”, disse.
A observação vai além da pauta de inclusão. Ela toca em um aspecto estrutural do desenvolvimento tecnológico: quando grupos muito homogêneos definem as bases, os usos e os investimentos da IA, cresce o risco de reproduzir vieses, restringir oportunidades e concentrar ainda mais valor econômico em circuitos já privilegiados.
Big techs foram alvo de críticas indiretas
Ao longo da conversa, Rana também fez críticas ao modelo de avanço liderado pelas grandes empresas de tecnologia. Embora não tenha centrado o debate em nomes específicos, deixou claro o incômodo com uma indústria que priorizou desempenho, escala e competição, mas negligenciou sensibilidade social e emocional.
“Estamos criando sistemas altamente inteligentes que ainda não sabem interagir com pessoas.”
A frase resumiu uma inquietação que ganhou força no SXSW: a IA pode se tornar cada vez mais poderosa, mas continuará incompleta se for desenhada sem considerar aspectos centrais da vida humana.
O momento pede participação mais ampla da sociedade
Apesar do tom crítico, a avaliação da especialista não foi de fatalismo. Ao contrário, ela apontou que este ainda é um momento decisivo para moldar o futuro da tecnologia de forma mais equilibrada.
“Todos temos responsabilidade. Escolhemos quais ferramentas usamos, quais empresas apoiamos e quais práticas aceitamos”, indicou.
Na visão de Rana, o maior risco estaria em deixar que uma parcela muito pequena da indústria continue definindo sozinha os rumos da inteligência artificial.
“Estamos em um momento decisivo. Se não colocarmos os humanos no centro da IA agora, talvez seja tarde demais depois”, encerrou ela.
A mensagem final do painel foi clara. O avanço da IA não deveria ser medido apenas por sofisticação técnica ou valuation de mercado. O verdadeiro teste da próxima fase da tecnologia estará em sua capacidade de servir melhor às pessoas, reduzir desequilíbrios e ampliar valor sem perder de vista aquilo que torna a inteligência, de fato, humana.
fonte: IT Forum
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