Reforma Tributária de 2026 exige maturidade digital das empresas

A Reforma Tributária no Brasil saiu dos discursos e entrou de forma definitiva na rotina das empresas em 2026. A implementação do IVA Dual, com alíquota inicial de 1% (sendo 0,9% de Contribuição sobre Bens e Serviços – CBS e 0,1% de Imposto sobre Bens e Serviços – IBS), marca o início de uma nova era na gestão fiscal e impõe um dos maiores desafios operacionais da década.

Apesar da aparente leveza da alíquota, o verdadeiro risco está na complexidade técnica do novo modelo e no impacto direto sobre a liquidez empresarial. Segundo o Banco Mundial, o Brasil é o país onde mais se gasta tempo para pagar impostos: mais de 1.500 horas por ano. O IVA promete simplificação no longo prazo, mas, no curto, o cenário é o oposto: um pico de complexidade sem precedentes.

Durante a transição, as empresas são obrigadas a manter simultaneamente os sistemas legados (PIS, COFINS, ICMS, ISS) ativos, ao mesmo tempo em que adotam os novos parâmetros do IVA Dual. Isso exige das áreas fiscais um volume de dados cerca de 40% maior do que no ano anterior. A parametrização correta de cada nota fiscal torna-se vital. Um erro pode significar não apenas retrabalho, mas bitributação real e perda de créditos fiscais.

Um dos pontos mais delicados dessa nova etapa é a compensação tributária. Embora o recolhimento sob o novo modelo permita abatimentos sobre os tributos antigos, isso só acontece se os dados forem registrados com precisão técnica absoluta. Um ERP mal configurado, por exemplo, pode impedir o uso do crédito e resultar em pagamento duplo de impostos.

Outro ponto crítico é o cadastro de produtos e serviços, que se torna um gargalo operacional. Erros em códigos NCM ou CNAE são responsáveis por mais de 30% das rejeições de notas em fases de transição. Além disso, com o novo modelo de não cumulatividade, créditos fiscais só são válidos se o imposto foi corretamente pago na etapa anterior, o que aumenta o risco em cadeia. Se um fornecedor falhar, o impacto chega ao comprador, e ao fluxo de caixa.

Essa transição é também a preparação obrigatória para o split payment, mecanismo que, a partir de 2027, vai permitir a retenção automática de tributos em tempo real. O Centro de Cidadania Fiscal (CCiF) estima que, se bem executada, a reforma pode adicionar até 12% ao PIB brasileiro em 15 anos. Mas esse ganho será reservado apenas às empresas que superarem o gargalo digital que começa agora.

Neste cenário, o ERP deixa de ser apenas uma ferramenta de gestão e se torna a espinha dorsal da governança tributária. A tecnologia precisa garantir validações em tempo real, interpretar regras fiscais com agilidade e prevenir erros antes que os dados cheguem ao Fisco. Ou seja: o ERP passa a ser uma plataforma de inteligência preventiva e fiscal, essencial para garantir a continuidade do negócio.

O ano de 2026 não permite mais esperar. As empresas que deixarem para depois enfrentarão rejeições em faturamento, multas e perda de liquidez. Por outro lado, aquelas que investirem na educação corporativa, na limpeza dos dados e na atualização dos sistemas de gestão, terão previsibilidade, segurança e vantagem competitiva.

O desafio da década já começou e ele não é apenas tributário. É tecnológico, estratégico e cultural. As organizações que transformarem conformidade em inteligência terão não só a sobrevivência garantida, mas também um caminho de crescimento sustentável em um sistema fiscal mais transparente e digitalizado.

fonte: Baguete

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