Prosus e AWS firmam acordo para escalar IA em mercados-chave

A Prosus, holding de investimentos controladora do iFood, anunciou um acordo de três anos com a Amazon Web Services (AWS) para acelerar o desenvolvimento e a escala de aplicações de inteligência artificial na América Latina, Europa e Índia. A iniciativa busca dar capilaridade às capacidades de IA já aplicadas em empresas do grupo e transformar esse avanço em um padrão replicável no portfólio, que inclui nomes como OLX, PayU, Despegar, eMag e Just Eat Takeaway.com.

Pelo desenho do contrato, as empresas controladas e investidas poderão cocriar soluções de IA com a AWS com foco em elevar a personalização de serviços e jornadas digitais. O objetivo explícito é usar IA para tornar experiências mais contextuais, com recomendações e descobertas mais relevantes, o que é particularmente estratégico em plataformas de alto volume, como delivery, e-commerce, classificados e pagamentos. Em mercados com competição intensa e múltiplas opções para o consumidor, a personalização deixa de ser diferencial e passa a ser um motor direto de retenção, recorrência e eficiência comercial.

No centro do anúncio está a intenção da Prosus de levar ao seu ecossistema o Large Commerce Model (LCM) do iFood. Trata-se de um sistema de IA agêntico voltado a soluções hiperpersonalizadas de busca e recomendação dentro da plataforma de entrega. Segundo a descrição apresentada, o LCM opera com memória de longo prazo: aprende com resultados, interpreta a intenção do consumidor e melhora a cada interação. Na prática, essa combinação de aprendizagem contínua e entendimento de intenção promete reduzir fricções na jornada, antecipar preferências e tornar a descoberta de produtos mais eficiente, beneficiando consumidor, plataforma e parceiros.

A Prosus também posiciona o acordo como continuidade de uma colaboração que já trouxe resultados para o iFood e outras empresas do grupo. Segundo Igor Cardoso, líder do Ecossistema Prosus, a experiência anterior com a AWS permitiu escalar inovações em IA, incluindo o próprio Modelo de Comércio em Grande Escala, remodelando a experiência de cliente no e-commerce. “Agora, estamos aprofundando nossa parceria além dos termos comerciais: a AWS está investindo recursos de engenharia para desenvolver produtos em conjunto conosco e fornecer acesso e suporte para todo o portfólio, a fim de implementar rapidamente casos de uso”, explica Cardoso.

Essa ênfase em recursos de engenharia é um detalhe relevante: indica uma parceria que vai além do consumo de infraestrutura e serviços, para uma lógica de desenvolvimento conjunto com o objetivo de reduzir tempo de implementação e criar soluções reaproveitáveis entre empresas com perfis diferentes. Em holdings com portfólio amplo, uma barreira recorrente é transformar uma boa solução criada em uma unidade de negócio em uma capacidade transferível para as demais. A proposta aqui é atacar exatamente esse desafio, tratando IA como plataforma compartilhada e não como iniciativa isolada.

O acordo se apoia em cinco pilares. O primeiro mira “alavancar a IA generativa de ponta para inovação de produtos, cocriação e criações por meio dos Programas AWS”. O segundo trata de “padronizar as melhores práticas para garantir a confiabilidade do sistema e minimizar interrupções no serviço”. Na sequência, aparecem “implementar estruturas de segurança de nível empresarial em todas as empresas do portfólio”, “otimizar o gasto com a nuvem através do FinOps” e “criar modelos de tecnologia unificados para implantação rápida em todas as empresas do portfólio”.

O conjunto mostra uma ambição clara de transformar IA em capacidade operacional de escala, com governança e previsibilidade. Em outras palavras, não basta treinar modelos e experimentar recomendações: é preciso garantir resiliência do serviço, controles de segurança consistentes, custo sob gestão e um modo de implantação que permita replicar projetos sem recomeçar do zero a cada empresa. A inclusão de FinOps, por exemplo, revela que a Prosus quer preservar velocidade sem perder disciplina financeira, especialmente porque iniciativas de IA podem elevar rapidamente o consumo de computação.

Do lado da AWS, a parceria é posicionada como uma combinação de tecnologia com conhecimento operacional do portfólio. “Ao combinar as capacidades de IA e aprendizado de máquina da AWS com a experiência operacional da Prosus em seu portfólio, estamos mudando a forma como os clientes experimentam e descobrem produtos”, afirma Greg Pearson, vice-presidente global de vendas da AWS. A fala reforça o foco em experiência do usuário final, mas também aponta para um benefício de negócio: personalização em escala costuma melhorar conversão, aumentar ticket, reduzir churn e elevar a eficiência de campanhas e recomendações.

O anúncio também destaca o peso do ecossistema Prosus em termos de dados e automação. A companhia, controlada pela sul-africana Naspers e fundada em 1997, opera e investe em plataformas digitais em setores como entrega de comida, classificados, pagamentos, educação e comércio eletrônico, com forte presença em mercados emergentes. Listada na B3, a empresa afirma reunir mais de 30 investimentos em startups de comércio eletrônico nativas de IA e uma base que ultrapassa 2 bilhões de clientes em seus negócios, além de 10 trilhões de tokens de dados e mais de 500 milhões de interações diárias.

Outro elemento de escala está no Toqan, plataforma interna de desenvolvimento de agentes da Prosus. Segundo o texto, a empresa já construiu mais de 30 mil agentes para automatizar fluxos de trabalho em suas operações, sugerindo que a holding já vinha operando com uma cultura de automação e agentes antes mesmo do novo acordo. Ao conectar essa capacidade a um parceiro de nuvem e IA, o grupo sinaliza que pretende acelerar ainda mais a industrialização de casos de uso, transformando automação em uma esteira contínua e padronizada.

O contexto da AWS também aparece no anúncio, reforçando maturidade e abrangência global. A empresa completa 19 anos no mercado e opera mais de 240 serviços em 114 zonas de disponibilidade distribuídas por 36 regiões geográficas. São Paulo, onde a AWS chegou em 2011, foi a quinta região da companhia no mundo e segue como a maior da América Latina. A multinacional afirma que investiu mais de US$ 3,8 bilhões até 2023 para construir, conectar, operar e manter seus data centers no Brasil e, em setembro de 2024, anunciou planos de investir mais US$ 1,8 bilhão até 2034. Também há planos anunciados para 16 novas zonas de disponibilidade e cinco novas regiões no Chile, Nova Zelândia, Reino da Arábia Saudita, Taiwan e a Nuvem Soberana Europeia.

O acordo, portanto, se desenha como uma tentativa de transformar IA em um “motor comum” do portfólio Prosus, usando a experiência de uma empresa como o iFood e a infraestrutura da AWS para criar soluções replicáveis e governáveis. Em vez de projetos pontuais, a ambição é construir uma base de tecnologia e práticas capazes de acelerar lançamentos, manter confiabilidade e segurança em nível corporativo e controlar custos mesmo com a expansão do uso de modelos generativos e agentes. Para plataformas digitais que competem por tempo, atenção e conveniência, essa combinação pode redefinir padrões de descoberta, recomendação e atendimento nos próximos anos.

fonte: Baguete

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