IA e big data ainda pesam pouco nas contratações no Brasil

Mesmo com a inteligência artificial ganhando espaço nas estratégias corporativas e no discurso sobre competitividade, o mercado de trabalho brasileiro ainda não incorporou de forma ampla essa exigência nas contratações. Um levantamento do Guia Salarial 2026 da Michael Page indica que o conhecimento em IA e Big Data segue longe de ser um critério dominante na seleção de profissionais.

Os dados revelam uma contradição importante do atual momento do mercado. De um lado, empresas reconhecem que o uso de tecnologia vem se tornando cada vez mais decisivo para produtividade, eficiência e inovação. De outro, na prática, boa parte das organizações ainda não prioriza essas competências quando abre vagas.

Maioria das empresas ainda não prioriza IA e Big Data

Segundo o estudo, 53,6% das empresas ouvidas afirmam que habilidades em IA e Big Data ainda são pouco demandadas em suas contratações. Já as companhias que apontam alta exigência desse tipo de conhecimento somam 46,4% da amostra.

O dado chama atenção porque mostra que, embora a transformação digital avance, a valorização dessas competências ainda acontece de maneira desigual. Em vez de serem tratadas como requisito básico em larga escala, IA e análise de dados continuam mais presentes em contextos específicos, ligados a determinados setores, cargos ou níveis de maturidade digital.

Alfabetização digital aparece como exigência mais consolidada

Se o domínio de IA e Big Data ainda não se tornou unanimidade, a alfabetização digital em sentido mais amplo já ocupa um espaço mais consolidado nas empresas. De acordo com a pesquisa, 60,4% das contratantes consideram esse conhecimento uma exigência primordial, enquanto 39,6% classificam essa habilidade como de baixa demanda.

Esse recorte sugere que o mercado vem cobrando, antes de tudo, uma base digital mais ampla. Ou seja, familiaridade com ferramentas, processos e rotinas tecnológicas já se tornou mais importante para a empregabilidade do que competências avançadas em inteligência artificial ou análise de grandes volumes de dados.

Mercado ainda vive fase de transição

O resultado ajuda a entender que o Brasil ainda atravessa uma fase de transição na incorporação dessas novas competências ao mercado de trabalho. A IA já é vista como estratégica para o futuro dos negócios, mas isso ainda não se traduz, com a mesma intensidade, em critérios objetivos de recrutamento.

Na prática, muitas empresas parecem reconhecer o valor da tecnologia, mas ainda não avançaram de forma consistente na reformulação dos perfis profissionais que procuram. Isso pode estar ligado a diferentes fatores, como baixa maturidade analítica, dificuldade para aplicar IA em áreas operacionais, carência de estrutura interna ou mesmo desconhecimento sobre como transformar essa demanda em exigência real de contratação.

Desafio vai além da tecnologia

O levantamento também sugere que o debate sobre empregabilidade digital não se resume a dominar ferramentas sofisticadas. Há um desafio mais amplo ligado à preparação das empresas para identificar, valorizar e absorver competências emergentes.

Num cenário em que inovação, automação e análise de dados ganham peso crescente, organizações que não atualizam seus critérios de contratação podem correr o risco de formar equipes menos preparadas para lidar com as exigências da nova economia. Ao mesmo tempo, profissionais que investem em IA e Big Data podem encontrar um mercado que ainda avança em ritmo mais lento do que o esperado.

O que os números indicam

Mais do que mostrar resistência, os dados apontam para um desalinhamento entre discurso e prática. A inteligência artificial já ocupa lugar de destaque nas conversas sobre estratégia e competitividade, mas ainda não aparece com a mesma força nos processos seletivos da maioria das empresas brasileiras.

Esse descompasso tende a se tornar um ponto de atenção nos próximos anos. À medida que IA, automação e análise de dados ganharem impacto mais direto nas operações, a exigência dessas competências deve deixar de ser diferencial para se tornar parte central do perfil profissional buscado pelas organizações.

fonte: Convergência Digital

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