A discussão sobre o impacto da inteligência artificial generativa nas empresas de software ganhou força nos últimos meses, especialmente após lançamentos de plataformas que reforçaram a percepção de que usuários poderiam criar sistemas próprios com muito mais facilidade. Essa leitura, no entanto, está longe de ser consenso entre os principais executivos do setor.
Em entrevista ao NeoFeed, Dennis Herszkovicz, CEO da Totvs, rebateu de forma direta a tese de que a IA generativa pode representar o fim da linha para as companhias de software. Para ele, essa interpretação simplifica demais um mercado complexo e desconsidera fatores decisivos como criticidade das aplicações, profundidade de relacionamento com clientes, conhecimento acumulado e capacidade de execução.
“Isso é uma bobagem. Eu considero a visão do mercado nesse momento completamente errada”, disse Dennis Herszkovicz, CEO da Totvs, em entrevista ao NeoFeed, quando questionado sobre a possibilidade de um fim de linha para os softwares.
Debate ganhou força após pressão sobre ações do setor
A avaliação do executivo ocorre em um momento em que o mercado passou a discutir com mais intensidade se a IA generativa pode reduzir barreiras de entrada e facilitar o surgimento de novas soluções, pressionando empresas tradicionais. Esse movimento teve reflexos também nas bolsas, com queda nas ações de companhias de software em diferentes mercados.
No Brasil, a Totvs esteve entre os nomes afetados por essa leitura. Ainda assim, Herszkovicz afirmou ver exagero nessa reação e sustentou que o problema está em enxergar o software como se fosse apenas código.
“Existe uma visão muito rasa em momentos de mais nervosismo de que o negócio de software é um business de criar código. Seria a mesma coisa que dizer que o business de carros é o aço do veículo.”
A frase resume o ponto central de sua argumentação. Na visão do CEO, o código é um insumo importante, mas está longe de explicar, sozinho, o valor de uma empresa de software. Produto, distribuição, base de clientes, especialização setorial, confiança e capacidade de atender processos críticos seguem como diferenciais difíceis de replicar.
Nem todo software enfrenta o mesmo grau de risco
Outro aspecto destacado na entrevista é que não faz sentido tratar o mercado de software como um bloco homogêneo. Herszkovicz argumenta que existem dinâmicas muito diferentes entre categorias, produtos e níveis de complexidade.
“Não dá para falar de software de maneira geral. É como falar do mercado de saúde, onde tem o plano de saúde, o hospital, o médico, a indústria farmacêutica, com dinâmicas completamente diferentes entre si. E o software é a mesma história.”
Nesse contexto, ele reconhece que soluções mais simples, menos críticas e mais fáceis de implementar podem enfrentar maior pressão competitiva. Quanto menor a complexidade e menor a consequência de uma falha, maior tende a ser o espaço para substituição ou surgimento de novas alternativas.
Por outro lado, o raciocínio muda quando se fala de softwares corporativos centrais, especialmente ERP.
ERP segue protegido por criticidade e abrangência
Ao abordar especificamente o segmento em que a Totvs atua com mais força, o CEO afirmou ver poucos riscos estruturais para o mercado de ERP. Segundo ele, esse tipo de plataforma mantém vantagens competitivas importantes justamente porque opera no coração das empresas.
“Francamente, eu vejo poucos riscos para o mercado de ERP.”
Na leitura do executivo, a relevância do ERP está no alcance dentro do cliente e no caráter crítico das operações que ele sustenta. Diferentemente de aplicações periféricas, sistemas de gestão empresarial concentram processos que não podem falhar sem impacto financeiro, operacional e regulatório.
“Não existe nenhuma aplicação que tenha o perímetro de cobertura que o ERP tem e, ao mesmo tempo, não é só esse perímetro, é a criticidade. Tudo que é feito dentro do ERP é crítico, você não pode errar.”
Esse ponto reforça a ideia de que, mesmo em um cenário de forte avanço da IA, as empresas continuarão exigindo robustez, confiabilidade e contexto de negócio em aplicações que controlam áreas como finanças, fiscal, estoque, compras, manufatura e backoffice.
Base de clientes e conhecimento acumulado seguem como barreiras
Herszkovicz também defendeu que a posição da Totvs é sustentada por ativos que vão além da tecnologia em si. Entre eles, citou a base de clientes, a capilaridade de distribuição e o volume de conhecimento construído ao longo de décadas atendendo empresas brasileiras.
“As proteções que a Totvs sempre teve continuam absolutamente intactas”, afirmou.
Ao detalhar essa visão, o executivo lembrou que a empresa opera com uma base de clientes que representa um quarto do PIB brasileiro e que isso gerou, ao longo do tempo, um conhecimento profundo sobre processos empresariais, setores e rotinas que não está disponível publicamente nem pode ser reproduzido com facilidade.
“Como alguém consegue replicar isso simplesmente através de Vibe Coding?”
A provocação indica que, para ele, a IA pode acelerar desenvolvimento e ampliar produtividade, mas não substitui automaticamente experiência acumulada, relacionamento comercial, inteligência setorial e domínio operacional.
IA aparece mais como oportunidade do que como ameaça
Talvez o ponto mais relevante da entrevista esteja na forma como a Totvs decidiu posicionar sua estratégia diante da nova onda tecnológica. Em vez de adotar uma postura defensiva, a empresa afirma estar olhando para a IA como vetor de expansão.
“A IA não é uma ameaça. Ao contrário. Um investidor me perguntou o que a Totvs estava fazendo para se defender da IA. E a minha resposta foi: não estamos fazendo nada para nos defender. Estamos fazendo para aproveitar e atacar com IA. Essa é a maior oportunidade que tivemos em vários anos.”
Essa fala ajuda a entender a visão mais ampla da companhia. A aposta não está em competir na construção de grandes modelos fundacionais ou infraestrutura computacional, disputa concentrada em poucas gigantes globais. O foco está em levar IA para dentro de casos de uso empresariais concretos, especialmente por meio de agentes e automação de tarefas.
Da venda de software para a execução de tarefas
Segundo o CEO, existe um espaço ainda maior de captura de valor quando se observa o quanto as empresas gastam para operar softwares, e não apenas para contratá-los. A lógica é que a IA pode reduzir esforço humano em tarefas repetitivas e abrir um novo mercado endereçável ao redor da operação dos sistemas.
“O que a IA traz para nós, e essa é a grande jogada, é essa habilidade, por meio da construção de agentes. Estamos falando aqui de um mercado endereçável 15 a 20 vezes maior.”
A visão apresentada sugere um deslocamento importante. Em vez de enxergar a IA como substituta do software, a Totvs a trata como camada de inteligência capaz de ampliar a utilidade das plataformas, automatizar rotinas e melhorar a performance do cliente.
Especialização deve pesar mais que generalismo
Na entrevista, Herszkovicz também comentou que, no ambiente corporativo, modelos generalistas não resolvem tudo. Para tarefas críticas de negócio, o valor tende a estar em aplicações e agentes especializados, desenhados para funções específicas e com contexto adequado.
Essa leitura dialoga com um ponto cada vez mais forte no mercado: a adoção de IA nas empresas depende menos de respostas genéricas e mais de precisão, governança, aderência regulatória e integração com processos reais.
Ao defender essa visão, a Totvs indica que vê o futuro menos em plataformas abertas e indiferenciadas e mais em soluções especializadas capazes de operar dentro das exigências do mundo corporativo brasileiro.
O que a entrevista sinaliza
A fala do CEO da Totvs ajuda a colocar em perspectiva um debate que, em muitos momentos, tem sido conduzido mais pelo entusiasmo e pelo medo do que pela análise estrutural do setor. A IA generativa deve, sim, alterar profundamente o mercado de software. Mas isso não significa, necessariamente, o desaparecimento das empresas estabelecidas.
No caso da Totvs, a mensagem é clara: a companhia não enxerga a nova onda como ameaça existencial ao seu negócio principal. Ao contrário, aposta que criticidade, conhecimento setorial, base instalada e capacidade de transformar IA em produtividade real devem reforçar sua posição em vez de enfraquecê-la.
fonte: NeoFeed
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