Fernando Brandão e a travessia real rumo ao computador quântico

Por trás do fascínio que a computação quântica desperta, existe um detalhe que costuma estragar a boa história da “corrida tecnológica”: ela não corre no ritmo das narrativas. O campo avança em cadência própria, ditada por física experimental, engenharia minuciosa e uma longa disputa contra o comportamento instável de sistemas quânticos. É nesse cenário, menos glamouroso e muito mais exigente, que se destaca o físico brasileiro Fernando Brandão, professor do Caltech, diretor de ciência aplicada da Amazon Web Services (AWS) e um dos líderes dos projetos de computação quântica da empresa.

Brandão nasceu em Belo Horizonte e, longe de um plano linear rumo à fronteira científica, chegou à física por caminhos laterais. Música e arquitetura ocupavam parte dos interesses, até que, no ensino médio, a curiosidade pela física ganhou espaço. A decisão profissional, porém, ainda passou pela engenharia: ele entrou em engenharia de controle e automação, mas percebeu no ciclo básico uma convergência que o atraía muito mais do que a prática da engenharia em si. “Gostava muito das três, mas não da engenharia em si”, relembra.

O ponto de inflexão veio em um período em que a internet ainda era um território de descobertas esparsas, no início dos anos 2000. Ao encontrar anotações de aula sobre computação quântica, ele viu reunidos os três pilares que o seduziam: matemática, física e ciência da computação. “Aquilo combinava exatamente tudo o que eu gostava. Decidi ir para a física e estudar computação quântica.” A partir daí, a trajetória seguiu consistente: graduação e mestrado na UFMG, doutorado na Inglaterra, passagens por centros de excelência na Europa, pesquisa na Microsoft, um período no Google e, há mais de uma década, a posição de professor no Caltech.

Essa biografia atravessa um debate que hoje é central para tecnologias profundas: como equilibrar ciência acadêmica e ambição industrial quando a tecnologia ainda não “virou produto”. No caso da computação quântica, Brandão trata essa fronteira como inevitável. “É uma tecnologia que ainda não existe de fato. Não conseguimos, hoje, construir um computador quântico capaz de resolver problemas úteis para a sociedade”, afirma. Em outras palavras, a pesquisa não está refinando um motor pronto; está tentando construir o motor e, ao mesmo tempo, inventar as ferramentas para que ele funcione de forma confiável.

É aí que entra a relevância da indústria, não como substituta da academia, mas como fonte de escala e fôlego financeiro para um esforço de longo prazo. A computação quântica exige laboratórios, equipamentos, equipes multidisciplinares e tolerância a riscos que, em muitos casos, são difíceis de sustentar apenas com recursos universitários. Brandão descreve esse ponto com clareza ao falar do projeto que conduz: “Esse tipo de tecnologia exige paciência. E poucas empresas no mundo conseguem investir no tempo certo, da maneira certa.”

A consequência dessa realidade é que o imaginário popular de uma competição direta entre companhias perde aderência. O desafio não se resume a ultrapassar um concorrente; o problema é domar um tipo de sistema que, por definição, não gosta de ser domado. “Não é empresa contra empresa. É a humanidade contra a natureza”, reflete. A frase funciona como síntese do estágio atual: o principal inimigo não é o mercado, e sim o ruído, a instabilidade e os limites físicos que fazem qubits errarem.

E aqui surge uma das confusões mais comuns: a ideia de que o gargalo está apenas em aumentar a quantidade de qubits. Brandão aponta outra prioridade, mais incômoda e mais determinante. Qubits são extremamente sensíveis ao ambiente e acumulam falhas rapidamente. Na prática, é possível executar centenas ou milhares de operações antes que o sistema se torne inutilizável. Para aplicações reais, seriam necessários bilhões. Essa distância entre o que é possível hoje e o que seria necessário amanhã é o que empurra a área para um tema que virou palavra-chave: correção de erros.

Em vez de perseguir somente mais qubits físicos, a estratégia mais promissora passa por qubits lógicos, que utilizam redundância e códigos quânticos para reduzir drasticamente a taxa de erro. O avanço nesse ponto é tratado como divisor de águas por quem acompanha a área porque ele define se a computação quântica conseguirá sair do modo demonstrativo e entrar no modo útil. “Só recentemente começamos a fazer progresso real em correção de erros quânticos”, explica. A analogia com a computação clássica ajuda a entender o tamanho do desafio: do armazenamento à comunicação, a confiabilidade do mundo digital depende de camadas de correção de erro. A computação quântica precisa construir sua própria versão disso, só que lidando com um sistema muito mais frágil.

Quando o assunto muda para aplicações, a postura de Brandão também se distancia de promessas fáceis. Ele não coloca a computação quântica como substituta do computador atual e nem como tecnologia para tarefas cotidianas. O valor, segundo ele, está em problemas específicos e muito complexos, onde a computação clássica simplesmente não escala. Criptografia, ciência de materiais, novos medicamentos e otimização em grande escala aparecem entre os alvos mais citados. “Alguns desses problemas estão completamente fora de cogitação para os computadores de hoje”, afirma. Em logística, por exemplo, otimizar rotas, recursos e alocação diante de milhares de variáveis não é apenas um exercício acadêmico, mas uma dor recorrente para grandes organizações.

Ainda assim, a linha do tempo permanece longa. Brandão evita o roteiro do “agora vai”. Para ele, as primeiras aplicações relevantes devem surgir ao longo da próxima década, com um intervalo que derruba o imediatismo típico do hype. “Não será em dois ou três anos. Mas talvez em sete ou oito.” A fala serve como antídoto para expectativas infladas e também como uma pista de maturidade: o campo não precisa parecer “perto” para estar progredindo; ele precisa resolver o problema certo, no ritmo certo.

Há também um componente simbólico na presença de um brasileiro em um dos centros da fronteira quântica global. Brandão reconhece o talento científico do país, mas sem romantizar as limitações estruturais quando o assunto é hardware caro e complexo. “O Brasil tem muito capital intelectual, muita criatividade, ótimos cientistas”, afirma. Ao mesmo tempo, ele faz questão de atribuir parte do próprio percurso à formação recebida no Brasil. “Sou muito grato aos ensinamentos que tive no Brasil. Sem isso, eu não estaria aqui.” O subtexto é direto: o gargalo não é falta de inteligência, e sim de condições para sustentar, por décadas, projetos desse porte.

Ao olhar o panorama histórico, Brandão relativiza a ansiedade de quem quer um salto rápido. A computação clássica levou décadas para sair de salas cheias de válvulas e chegar a chips com bilhões de transistores. A quântica, embora potencialmente mais disruptiva, não escapa dessa lógica. “Quanto mais radical é a tecnologia, mais tempo ela demora”, lembra ele. A diferença, agora, é que o caminho está mais consciente e mais distribuído: universidades, empresas e governos formam um ecossistema global onde colaboração e persistência importam tanto quanto genialidade.

No fim, a história de Brandão se conecta menos a um mito de “gênio” e mais a um padrão de inovação profunda: curiosidade, resiliência e disposição para conviver com problemas sem solução clara. Para quem pensa em seguir carreira na área, ele resume o tipo de compromisso exigido com uma frase que desromantiza o percurso e, ao mesmo tempo, o torna concreto. “É preciso gostar tanto do que faz a ponto de preferir estudar isso do que sair com os amigos”.

fonte: IT Forum

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