A Microsoft iniciou 2026 com uma ofensiva dupla que reflete sua nova postura diante dos desafios da era da inteligência artificial: combate ativo ao cibercrime e responsabilidade na expansão energética dos seus data centers. De um lado, a gigante de Redmond desmantelou uma das maiores plataformas de “crime como serviço” baseadas em IA. De outro, propôs pagar mais pela própria eletricidade para proteger a população americana do aumento nas contas de luz.
Essas ações revelam o esforço da companhia em reconfigurar não apenas o uso da IA, mas também o ecossistema em torno dela, seja do ponto de vista da segurança cibernética, seja da infraestrutura energética e social.
RedVDS: o golpe automatizado como serviço
A operação que desmontou o RedVDS é considerada um marco na luta contra o cibercrime industrializado. O serviço funcionava como um marketplace de golpes por assinatura: por apenas US$ 24 por mês, criminosos acessavam máquinas virtuais descartáveis para disparar e-mails maliciosos, clonar vozes e aplicar fraudes globais.
Com base em IA generativa e ferramentas de clonagem de voz, os golpistas atuavam com alto grau de sofisticação, especialmente em fraudes do tipo BEC (Business Email Compromise), que envolvem o comprometimento de e-mails empresariais para desviar pagamentos no momento exato das transações. Uma farmacêutica do Alabama, por exemplo, perdeu US$ 7,3 milhões destinados a tratamentos de saúde.
Segundo a Microsoft, o RedVDS comprometia mais de 191 mil contas da empresa em 130 mil organizações em todo o mundo, focando setores vulneráveis como o imobiliário e a saúde. A IA também era usada para criar vídeos manipulados e se passar por executivos em chamadas de vídeo, prática que driblava até sistemas de autenticação mais robustos.
Atacando a base técnica do crime
Mais do que remover criminosos individualmente, a Microsoft optou por atacar o ecossistema técnico que os sustentava. Com apoio da Europol e de agências dos EUA, Reino Unido e Alemanha, os servidores centrais e domínios do RedVDS foram confiscados.
“Ao atacar a base técnica que torna o crime barato e expansível, a companhia tenta elevar o custo operacional para os golpistas”, destacou a empresa. A ação também servirá para mapear os operadores por trás da rede e evitar reincidência.
Recomendações para empresas e usuários incluem:
– Confirmação de pagamentos por telefone
– Habilitação da autenticação multifator
– Denúncia imediata de atividades suspeitas
IA e energia: pagar mais para não pesar no bolso do cidadão
Em paralelo, a Microsoft propôs nos EUA o plano “Community-First AI Infrastructure”, que prevê tarifas energéticas mais altas para os próprios data centers. O objetivo é evitar que a conta da IA recaia sobre os consumidores comuns, diante da estimativa de que a demanda energética do setor triplique até 2035.
A empresa iniciou testes em estados como Wyoming e Wisconsin, com um modelo voltado para “clientes muito grandes”. A proposta foi apoiada publicamente pelo presidente Donald Trump, que defendeu que as big techs “devem pagar a própria conta”.
A estratégia vai além da tarifa:
– IA para otimizar resfriamento de servidores
– Investimentos em energia nuclear
– Compromisso de não pedir isenções fiscais
– Devolução de mais água às bacias do que é consumido, especialmente em áreas áridas
Para Brad Smith, presidente da Microsoft, a expansão da infraestrutura digital se compara às grandes ferrovias do passado e deve ser acompanhada por inovação social e transparência regulatória.
Segurança, sustentabilidade e ética na era da IA
As ações recentes da Microsoft apontam para um modelo de atuação mais integrado, no qual tecnologia, responsabilidade corporativa e proteção digital caminham juntos. A empresa tenta moldar não só o uso da inteligência artificial, mas também as estruturas que a sustentam e os riscos que ela impõe.
Num mundo onde IA pode tanto proteger quanto atacar, a resposta precisa ser igualmente estratégica. Derrubar marketplaces criminosos e ao mesmo tempo investir em expansão ética é o tipo de movimento que redesenha as regras do jogo.
fonte: Olhar Digital
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