A inteligência artificial já está no centro da agenda corporativa, mas um novo estudo global do IBM Institute for Business Value mostra que muitas empresas ainda patinam no básico: a qualidade, o acesso e a governança dos dados. Com base em insights de 1,7 mil Chief Data Officers (CDOs) em todo o mundo, o levantamento revela um cenário de contradição: a ambição de escalar a IA cresce rápido, enquanto a prontidão dos dados avança em ritmo bem mais lento.
O estudo, detalhado em matéria no Infor Channel, evidencia uma lacuna que tende a se ampliar se os dados continuarem fragmentados, pouco confiáveis ou restritos a poucos times. Embora 81% dos CDOs afirmem que a estratégia de dados de suas organizações já está integrada ao roadmap de tecnologia e aos investimentos em infraestrutura, apenas 26% se dizem confiantes de que seus dados são capazes de suportar novos fluxos de receita habilitados por IA.
Em outras palavras, a maior parte das empresas já fala a linguagem da IA, mas ainda não construiu o alicerce necessário para que essas iniciativas gerem impacto de negócio em larga escala.
CDO deixa de ser “guardião” para virar estrategista de negócio
Uma das mudanças mais claras apontadas pelo estudo é o reposicionamento do papel do CDO. Se antes o foco estava quase exclusivamente em governança e compliance, agora a função é pressionada a provar valor em termos de resultado de negócio.
A maioria dos entrevistados (92%) diz que precisa se concentrar diretamente nos outcomes de negócio para ser bem-sucedida na função. Ao mesmo tempo, apenas cerca de um terço declara, com convicção, que consegue comunicar claramente como os dados contribuem para esses resultados, e só 29% afirmam ter métricas bem definidas para medir o valor gerado por iniciativas orientadas por dados.
Ou seja, o CDO ganha espaço estratégico, mas ainda luta para traduzir dados em linguagem que o board entenda e compre. Não por acaso, a principal prioridade hoje é usar dados para gerar vantagem competitiva, superando, inclusive, governança e segurança como responsabilidades centrais.
Esse movimento já traz frutos: 84% dos CDOs ouvidos dizem que seus produtos de dados exclusivos proporcionaram vantagens competitivas significativas, e 78% apontam o uso de dados proprietários como uma das principais alavancas para diferenciar suas organizações no mercado.
Ambição alta em IA, maturidade de dados ainda no começo
Na prática, a corrida por IA já começou. Segundo o estudo, 81% dos CDOs priorizam investimentos que aceleram capacidades e iniciativas de inteligência artificial. No entanto, a infraestrutura de dados nem sempre acompanha essa ambição.
Um dos pontos mais críticos é o uso de dados não estruturados, como e-mails, documentos, áudios e textos livres. Apenas 26% dos CDOs se sentem confiantes de que suas empresas conseguem explorar esse tipo de dado de forma que agregue valor real ao negócio. Isso é especialmente relevante em um mundo em que agentes de IA generativa dependem fortemente desse tipo de conteúdo para gerar contextos, recomendações e automações.
Para reduzir essa distância entre intenção e realidade, 81% dos entrevistados dizem que estão adotando uma abordagem de “levar a IA até os dados” em vez de tentar centralizar tudo em um único repositório. Essa estratégia tende a ser mais flexível em ambientes complexos, com múltiplas fontes, legados e requisitos regulatórios.
Ao mesmo tempo, 80% dos líderes afirmam ter começado a construir conjuntos de dados diversos para treinar agentes de IA, mas 79% admitem que ainda estão nos estágios iniciais de definição de como escalar e governar esses dados. Em outras palavras, a base está em construção, mas longe de estar estabilizada.
Apesar das incertezas, o otimismo prevalece: 83% dos CDOs acreditam que os benefícios potenciais da implantação de agentes de IA superam os riscos, e 77% se dizem confortáveis em confiar nos resultados produzidos por esses agentes em suas organizações. A mensagem é clara: o apetite por IA é grande, mas precisa ser sustentado por um trabalho consistente em dados.
“A IA corporativa em escala está ao alcance”
No centro dessa discussão está a visão de que IA e dados não podem ser tratados como frentes separadas. Essa conexão é sintetizada nas palavras de Ed Lovely, vice-presidente e diretor de Dados da IBM, citadas no estudo:
“A IA corporativa em escala está ao alcance, mas o sucesso depende das organizações que a capacitam com os dados certos. Para os CDOs, isso significa estabelecer uma arquitetura de dados corporativos perfeitamente integrada que alimente a inovação e libere o valor dos negócios”, disse Ed Lovely, vice-presidente e diretor de Dados da IBM. “As organizações que acertarem não apenas melhorarão sua IA, mas também transformarão a forma como operam, tomarão decisões mais rápidas, se adaptarão às mudanças mais rapidamente e ganharão uma vantagem competitiva”, afirmou.
Na prática, isso se traduz em arquiteturas de dados mais integradas, com menos silos, mais padronização, melhores práticas de governança e uma visão clara de ciclo de vida da informação, da captura ao consumo.
Democratizar o acesso a dados continua sendo ponto sensível
Outro eixo crítico identificado pelo estudo é a cultura orientada por dados. A maioria dos CDOs reconhece que não adianta ter boas ferramentas e boa arquitetura se os dados continuam restritos a poucos times ou se o uso permanece concentrado em áreas técnicas.
Os números são reveladores: 82% dos entrevistados acreditam que os dados são desperdiçados se as organizações não dão acesso adequado às pessoas, e 80% defendem que a democratização dos dados ajuda a empresa a se mover mais rápido.
Ainda assim, promover uma cultura data-driven segue entre os principais desafios estratégicos. Mesmo com 74% dos CDOs dizendo que incentivam ativamente uma cultura de stewardship de dados entre os funcionários, o gap entre intenção e prática permanece.
Criar essa cultura envolve mais do que ferramentas de visualização ou catálogos de dados. Exige investimento em comunicação, processos, incentivos e, principalmente, clareza sobre como o uso de dados se conecta a objetivos concretos da organização.
Talentos de dados viram gargalo para evolução da IA
Se dados são o combustível e a IA o motor, falta um terceiro elemento para que tudo funcione: pessoas com habilidades avançadas em dados e analytics. E é justamente aí que muitos CDOs estão esbarrando.
O estudo mostra que 47% dos entrevistados agora enxergam a atração, o desenvolvimento e a retenção de talentos especializados em dados como um dos principais desafios – um salto relevante em relação aos 32% que apontavam esse ponto em 2023.
Além disso, 77% afirmam que têm dificuldade para preencher posições estratégicas na área de dados, e apenas 53% avaliam que seus esforços de recrutamento e retenção estão entregando as habilidades e a experiência necessárias – queda expressiva em comparação com os 75% registrados em 2024.
Essa combinação de escassez de talentos e pressão por resultados rápidos em IA cria um cenário complicado: mesmo organizações com boa visão estratégica e orçamento adequado podem ter dificuldade em avançar no ritmo desejado se não conseguirem montar times qualificados para arquitetar, limpar, integrar, governar e explorar dados.
Dados prontos para a IA: o próximo passo da agenda corporativa
O estudo do IBM Institute for Business Value reforça um recado que vem ganhando força em todo o mercado: não existe IA corporativa robusta sem uma base de dados madura, acessível e confiável. O entusiasmo com agentes de IA, automação de processos e geração de conteúdo precisa vir acompanhado de uma disciplina rigorosa sobre a qualidade, a origem e o uso responsável das informações.
Os CDOs já perceberam isso. Estão sendo cobrados por resultados de negócio, pressionados a construir estratégias de dados mais integradas e desafiados a democratizar o acesso à informação ao mesmo tempo em que mantêm governança e segurança.
A próxima fronteira passa por três movimentos coordenados:
– elevar a qualidade dos dados a uma prioridade real, não apenas declaratória
– conectar arquitetura de dados e arquitetura de IA em um mesmo desenho estratégico
– investir em pessoas e cultura, para que a empresa deixe de depender de poucos especialistas e passe a tomar decisões orientadas por dados em toda a organização
Enquanto a tecnologia avança em ritmo acelerado, quem vai liderar de fato a era da IA corporativa são as empresas que conseguirem alinhar ambição e prontidão, construindo dados à altura da inteligência artificial que desejam escalar.
fonte: Infor Channel
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