Do GPS ao feed infinito das redes sociais, a tecnologia não apenas facilita o cotidiano, mas também influencia escolhas, pensamentos e até valores sociais. Muitas vezes, sem perceber, cedemos parcelas de autonomia e privacidade em troca de conveniência. O especialista em tecnologia, inteligência artificial e inovação, Marcel Nobre, fundador e CEO da BetaLab, alerta que esse impacto é profundo e cada vez mais presente.
“Tudo o que fazemos online deixa um rastro digital: pedir comida por aplicativo, usar o Waze, Google Maps, assistir à Netflix, comprar blusinha na Shopee… E isso vai criando dados. No fim das contas, os aplicativos de celular hoje são empresas de dados fantasiadas de empresas de serviço”, observa Nobre. Para ele, a hiperconexão transformou a privacidade em um conceito quase inexistente.
Esse cenário se reflete também em nossa atenção. Uma pesquisa do MIT indica que o uso excessivo de IA pode reduzir em até 32% a carga cognitiva necessária para aprendizagem. “Aos poucos, estamos reduzindo nosso pensamento crítico e virando massa de manobra”, explica Nobre. O resultado é um comportamento cada vez mais automático, guiado por recomendações algorítmicas e impulsos instantâneos.
Outro ponto crucial é a percepção equivocada sobre a inteligência artificial. “Ela não é inteligente, porque a inteligência é um processo biológico natural humano, que não dá para uma máquina fazer. A IA emula para o que foi treinada. No fundo, ela não gosta de você, não sente nada e nem sabe quem é você”, reforça.
Ainda assim, essa mesma IA já sabe mais sobre os usuários do que eles próprios. Likes, comentários e tempo gasto em interações constroem perfis de comportamento refinados, usados para prever desejos e até influenciar opiniões. Isso gera um risco silencioso: “já imaginou como seria se esses dados fossem usados para prever com precisão qual conteúdo teria uma chance maior de mudar a sua opinião?”, questiona o especialista.
Essa manipulação ganha força em um cenário de concentração de poder. Amazon Web Services, Microsoft e Google dominam a infraestrutura global de nuvem. Para Nobre, isso cria um jogo geopolítico em que poucos controlam a maior parte da informação. “Quem define o que é verdade? O que vai aparecer no seu feed, o que vai aparecer na sua busca, no seu ChatGPT?”, provoca.
O poder de decisão, assim, se torna ilusório. Estudos mostram que a maioria dos consumidores aceita sugestões de IA em decisões de compra. O caso Cambridge Analytica expôs como esses mecanismos podem alterar rumos políticos. O algoritmo, por sua vez, reforça desejos e isola indivíduos em bolhas, moldando comportamentos a partir da repetição. “As pessoas não percebem, porque é feito de forma subliminar, para estimular uma compra e recolher dados”, explica.
Por fim, a promessa da conveniência se revela um convite à dependência. De compras instantâneas a respostas automáticas de e-mail, a tecnologia elimina atritos, mas mina a autonomia. “A ultra conveniência te prometeu te dar mais tempo, mas onde ele está? Bem, ela não surgiu para te poupar tempo, mas para te liberar tempo para você consumir mais”, alerta Nobre.
A discussão proposta não é sobre rejeitar a tecnologia, mas sobre compreender seus efeitos e recuperar intencionalidade em seu uso. Afinal, se liberdade significa apenas apertar um botão, talvez já tenhamos entregado mais do que imaginamos.
fonte: Startupi
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