Quem deve liderar a inteligência artificial nas empresas? Dica: não é a área de TI

O avanço da IA nas organizações demanda uma nova mentalidade: o protagonismo da transformação precisa partir de quem está mais próximo das decisões estratégicas — e não apenas dos servidores.

Enquanto o mundo observa a ascensão acelerada da inteligência artificial, especialmente com o boom das soluções generativas como o ChatGPT, muitas empresas ainda se veem diante de uma pergunta fundamental: quem deve estar à frente dessa revolução interna? Instintivamente, a resposta costuma apontar para o setor de TI. Mas esse reflexo automático pode custar caro às organizações que realmente querem transformar seus negócios com tecnologia.

“Se a inteligência artificial estiver concentrada apenas nas mãos da TI, ela se torna mais uma ferramenta técnica. Mas, se estiver nas mãos de quem vive os problemas e oportunidades do dia a dia do negócio, ela vira estratégia”, afirma Manoel Lemos, sócio da Redpoint eventures. Ele traz à tona um ponto cada vez mais recorrente em discussões sobre transformação digital: tecnologia não transforma empresas — pessoas com visão de negócio transformam.

A tecnologia é um meio, não o fim. Por isso, a adoção de IA precisa ser orientada por quem conhece profundamente os clientes, os produtos, as operações e os gargalos. Estamos falando de líderes comerciais, de marketing, de supply chain, de produto — e de qualquer área que esteja na linha de frente com o mercado.

A mudança de centro de gravidade da TI para o negócio

O papel da área de tecnologia da informação segue sendo essencial — mas com outro foco. TI deve garantir a governança, a segurança, a interoperabilidade e a escalabilidade dos sistemas, além de oferecer suporte técnico robusto. No entanto, o impulso inicial da IA precisa partir de onde as decisões são tomadas com base em metas e resultados, e não em especificações técnicas.

Isso representa uma mudança profunda no modelo tradicional. Antes, soluções tecnológicas eram desenhadas, priorizadas e implementadas com base nas estruturas e limitações dos sistemas internos. Agora, o movimento é o oposto: as necessidades do negócio guiam o desenvolvimento de soluções e definem as prioridades tecnológicas.

IA como alavanca de competitividade — e não de complexidade

Outro aspecto relevante dessa mudança é o risco de a IA se tornar um projeto isolado, restrito a um laboratório de inovação ou a uma célula específica de TI. Nesse modelo, a tecnologia corre o risco de ser subutilizada, pouco compreendida e até rejeitada pelos times operacionais. O efeito, muitas vezes, é uma pilha de iniciativas desconectadas, sem impacto real no resultado da empresa.

É por isso que a inteligência artificial precisa ser absorvida como ferramenta de impacto no core business. “A TI é quem vai habilitar e apoiar. Mas quem deve colocar a inteligência artificial no centro da estratégia é quem está na linha de frente com o cliente e com o mercado”, reforça Lemos. A tecnologia precisa ser aplicada com foco em ganho de eficiência, inovação de produtos, personalização de serviços e aceleração de decisões estratégicas.

A IA como cultura e não como projeto

Mais do que uma tecnologia, a IA precisa ser incorporada como parte da cultura organizacional. E cultura é criada a partir do exemplo. Quando os líderes de negócio se envolvem diretamente em iniciativas com IA — desde a definição dos objetivos até a análise dos resultados — a organização compreende que não se trata de modismo, mas de uma nova forma de pensar e agir.

Esses líderes devem assumir o papel de “champions” da IA dentro da empresa, fomentando a experimentação, priorizando projetos com alto impacto e garantindo que os dados sejam usados com responsabilidade e inteligência. A partir disso, cria-se um ciclo virtuoso: quanto mais valor gerado, maior o engajamento das equipes e a disseminação da mentalidade digital.

O futuro pertence a quem conecta tecnologia com propósito

A inteligência artificial não substitui o capital humano — ela potencializa suas decisões. Mas essa potência só será atingida se a IA for conduzida por quem enxerga onde estão os desafios reais e como a tecnologia pode entregar valor. Isso significa empoderar os líderes de negócio, integrando seus objetivos às capacidades técnicas da TI.

A pergunta que fica para as empresas é simples, porém poderosa: quem está liderando a IA na sua organização? Se não for alguém que respira o dia a dia do negócio, talvez a transformação ainda esteja longe de acontecer.

fonte: Gizmodo

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