A B3, operadora da bolsa brasileira, firmou um acordo de dez anos com a Microsoft e a Oracle para migrar seus sistemas e plataformas para a nuvem computacional. O projeto será realizado em duas fases distintas. Segundo Rodrigo Nardoni, vice-presidente de tecnologia e segurança da informação da B3, nos primeiros cinco anos serão migrados os sistemas mais compatíveis com a nuvem, a fim de obter rapidamente os benefícios da mudança. Na segunda fase, pretende-se criar tecnologias que facilitem a migração dos demais sistemas, incluindo o de negociação de ações.
As conversas para a parceria começaram há aproximadamente um ano e três meses, quando a B3 iniciou a seleção de parceiros de tecnologia para a migração para a nuvem. Essa decisão seguiu as conclusões de um estudo realizado em 2019 pela Accenture, que avaliou as plataformas existentes e recomendou a busca por parceiros especializados na migração. O valor do contrato não foi divulgado.
A proposta de colaboração no projeto da B3 foi apresentada pela Microsoft e Oracle, que já eram fornecedoras da empresa. Essa abordagem conjunta já havia rendido resultados no Brasil anteriormente, quando as duas empresas fecharam um acordo de nuvem com a TIM em março do ano passado.
Tanto a Microsoft quanto a Oracle possuem centros de dados no Brasil, nos quais estão armazenados os servidores e a infraestrutura de comunicação que sustentam a nuvem. A legislação exige que os dados de clientes e investidores da B3 sejam armazenados em território nacional, tornando essencial a presença dos fornecedores com infraestrutura local. As instalações da Microsoft e da Oracle também contam com recursos de interoperabilidade, possibilitando a troca de informações entre os centros de dados com baixa latência.
A B3 ainda não decidiu o que será feito com sua infraestrutura atual, que inclui dois centros de dados próprios e um alugado da Equinix. Nardoni afirma que, por enquanto, não há planos para se desfazer dessas instalações, e a destinação delas será definida ao longo do tempo.
Essa movimentação da B3 segue o exemplo de outras bolsas internacionais. Em novembro de 2021, a Nasdaq anunciou um acordo com a Amazon Web Services (AWS) para migrar seus sistemas para a nuvem, enquanto a CME, que atua no mercado de futuros e controla a bolsa de commodities agrícolas de Chicago, fechou um contrato de nuvem com o Google, da Alphabet, também no mesmo mês.
Tânia Cosentino, presidente da Microsoft Brasil, afirma que o acordo com a B3 visa transformar o negócio e trazer inovações ao mercado. Equipes de engenharia das três empresas trabalharão juntas para criar ferramentas de migração, além de oferecer treinamento e certificação de profissionais. "Não é algo trivial. Além de migrar os sistemas legados, a B3 passa a atuar sob o conceito 'cloud first', com ênfase na nuvem, o que abre oportunidades de cocriação de tecnologia com recursos como inteligência artificial", afirma a executiva.
A abordagem "multicloud", utilizando tecnologias de diferentes fornecedores, contribui para a diversidade e atrai mais talentos, de acordo com Rodrigo Galvão, vice-presidente sênior de tecnologia da Oracle na América Latina. Ele destaca que a nuvem pode auxiliar em questões cada vez mais valorizadas pelas empresas, como a sustentabilidade. A Oracle tem como meta atingir 100% de energia renovável em seus centros de dados até 2025, e já alcançou 88% dessa meta no Brasil.
Na B3, a estratégia de priorizar a nuvem resultou no redesenho completo do sistema de gravame de veículos, que registra automóveis financiados e ainda não quitados. Em vez de adaptar o sistema original, desenvolvido para mainframes, a B3 optou por reconstruí-lo do zero na nuvem.
Na primeira fase do projeto, outros sistemas como clearing de câmbio, seguros, balcão e Banco B3 também serão migrados para a nuvem. A empresa lançou recentemente uma nova "área logada", totalmente desenvolvida na nuvem, que permite aos usuários acessar todas as informações sobre seus investimentos em um único local, mesmo sendo clientes de várias corretoras. Nardoni destaca que a nuvem oferece flexibilidade e agilidade na entrega de produtos, além de facilitar a interação das empresas com seus clientes.
Nardoni acrescenta que a adoção da nuvem também pode acelerar a evolução do ecossistema tecnológico, permitindo que desenvolvedores de software acessem, de forma segura, as chamadas APIs (Application Programming Interfaces), que são conjuntos de rotinas e padrões utilizados para criar produtos relacionados. Ele ressalta que o acordo reforça o compromisso da B3 com a inovação e afirma: "Aqui, desenvolvemos o amanhã"
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